Velho Chico celebra 515 anos

Rio São Francisco
Após nascer no Sul de Minas, rio São Francisco banha outros quatro Estados
PUBLICADO EM 04/10/16 - 03h00
Como um gigante de águas claras, o rio da integração nacional acompanha e permite o desenvolvimento do Brasil desde os seus primórdios. nesta terça-feira  (4), faz 515 anos da descoberta do rio São Francisco, que corta cinco Estados do país. Ele cresce e faz história com a nação, contudo, mesmo forte e vital aos 505 municípios por onde passa, aos poucos foi sendo degradado pela ação humana. E é na tentativa de devolver sua vitalidade que a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) desenvolve um projeto para recuperar 205 microbacias localizadas perto da nascente do rio.

O berço do Velho Chico fica na serra da Canastra, no município de São Roque de Minas, no Sul do Estado. Da nascente, ele percorre cerca de 2.800 km até desaguar no oceano Atlântico, passando por Minas, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe.

Para celebrar esse momento, a Codevasf lança nesta terça-feira (4), ações simbólicas para mobilizar a população da importância de se preservar o rio. Aroeira, araçá, gonçalves-alves e pitombeira, árvores típicas do Cerrado, serão plantadas no município de Urucuia, na região Noroeste de Minas. O ato será coordenado pela equipe que trabalha com a recuperação das bacias.

Além das árvores, no Nordeste do país, ações irão introduzir filhotes de peixes nativos em algumas partes do médio e baixo São Francisco. Entre eles estão espécies de piau, xira, pacamã, matrinxã e piaba. Serão recolocados no curso d’água cerca de 167 mil animais. Essa ação é uma parceria com o governo da Bahia e vai abranger pelo menos cinco municípios. Em Sergipe, no último dia 28, 20 mil peixes também foram colocados nas águas.

Revitalização. Para além das ações simbólicas, há mais de dez anos um programa de revitalização está em andamento em Minas Gerais, com destaque para as regiões perto da nascente do rio. “Hoje, estamos com um programa já em execução e temos parcerias muito sólidas com o Estado de Minas Gerais. Com isso, concentramos a aplicação dessas ações em 205 microbacias. Pode parecer pouco, já que são milhares, mas serve não só para melhorar a situação local, mas para que isso seja replicado ao longo dos rios”, explica o gerente regional de revitalização Sidenísio Lopes de Oliveira.

Segundo ele, esse processo de revitalização tem que ser permanente, para manter a qualidade do rio. Com isso, a Codevasf tenta, além da revitalização, conscientizar a comunidade da importância dessas ações. “Queremos que a própria sociedade copie esses modelos e passe a usar em suas propriedades rurais”, completa.

O especialista explica que a degradação vem da bacia e, por isso, a importância de recuperá-la como um todo. “O problema vem da borda da bacia e vai em direção à calha do rio, onde há o transporte de sedimentos e toda uma degradação. Estamos recuperando as microbacias para evitar o carreamento (de sedimentos) e que as pequenas nascentes sejam soterradas”, destaca Oliveira.

Números
2.800 km  é a extensão total do rio São Francisco, da nascente até a foz
620 mil km² é a extensão territorial de todo o vale do São Francisco
505 municípios fazem parte do vale do São Francisco, sendo banhados pelo rio
18,2 mi de pessoas vivem às margens do São Francisco em toda sua extensão 
Afogamento
‘Velho Chico’. A última novela das nove da Rede Globo trazia a importância do rio e a necessidade de se preservar suas águas. O local das gravações também foi destaque após a morte do ator Domingos Montagner, que se afogou em Sergipe.
Ações na bacia não foram efetivas, diz biólogo
Bacia do São Francisco, segundo o biólogo Carlos Bernardo Mascarenhas Alves, é a maior exclusivamente brasileira, o que traz uma visibilidade nacional e reforça a importância de uma revitalização. No entanto, ele acredita que o trabalho que está sendo feito ainda não é suficiente, e os danos à bacia ficam evidentes, principalmente nos períodos de seca.

“A bacia, para mim, está muito degradada, e essa degradação fica mais evidente em períodos de seca extrema, como o de agora. Não se alterou nada, não houve programa efetivo para revitalização do rio”, afirma o professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
.
Alves acredita que isso tem que ser uma decisão política, para virar a página e transformar todas as ações no rio em prioridade: “O que eu digo é que a forma com que o rio tem sido tratado nesses 500 anos não foi condizente com a importância dele”.


ENTENDA


Recuperação. O programa de revitalização da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) tem o objetivo de executar ações em <205 microbacias do São Francisco, que estão em 165 municípios de Minas.

Investimento. As ações somam, até agora, recursos de R$ 42,2 milhões aplicados em cercamento de 1.168 nascentes, construção de 34.051 bacias de captação de enxurradas e implantação de 926 km de cercas para a proteção de áreas ciliares, topos de morro e áreas degradadas. Além disso, foram construídos 1.491 km de terraços e feita a adequação ambiental de 165 km de estradas vicinais.<EM>

Parceria. O trabalho é feito em parceria com organizações não governamentais, governos municipais e o governo de Minas, por meio da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa-MG), da Fundação Rural Mineira (Ruralminas) e da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas (Emater-MG).

Erosão. As técnicas usadas para a recuperação e o controle do processo de erosão têm métodos diferentes. Os trabalhos recorrem à implantação de terraços e barraginhas; cercamentos, proteção e recuperação de nascentes, matas ciliares, topos de morros e de reserva-legal; readequação de estradas vicinais; revegetação; e contenção e estabilização de voçorocas (grandes buracos de erosão causados pela água da chuva) e encostas. 

Qualidade. A fase atual do programa de revitalização tem o objetivo de aumentar o volume e a qualidade da água. O total de recursos programados para esta fase é de R$ 64,3 milhões, o que significa que sua execução já chega a 66%.

Permanência. Para que a recuperação seja efetiva, as ações contra danos ambientais que degradaram o rio precisam ser contínuas, para que a bacia consiga se manter saudável. 

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